A diminuição das distâncias e a ampliação do tempo são desejos humanos antigos que os avanços tecnológicos vêm permitindo realizar. Hoje, é possível estar com muitas pessoas, independentemente da sua localização, utilizando-se de computadores, internet, smartphones e redes sociais. Estas conquistas também estão presentes no contexto das organizações e do trabalho, conferindo maior flexibilidade espacial e temporal à execução de tarefas, dando origem ao teletrabalho.
O teletrabalho também é caracterizado pelo uso de tecnologia da informação, mas pode ser parcialmente presencial, realizado em telecentros, estações de coworking ou mesmo em casa, quando é chamado de home-office. Com isso, trabalhar à distância tornou-se um recurso interessante para empresas e trabalhadores.
De um lado, o empregado ganha autonomia, horários flexíveis, evita o trânsito e pode ficar mais perto da família. Do outro, o empregador se beneficia ao quebrar barreiras geográficas, reduzir custos organizacionais e obter um funcionário mais satisfeito e produtivo. Todavia, costumamos nos incomodar se a casa adentra o trabalho. Mas o que acontece quando é o trabalho que entra em casa?
O trabalho remoto gera impactos psíquicos sobre o indivíduo, tornando-se relevante avaliar quais são as condições necessárias para que trabalhador e instituição sejam favorecidos. A forma como ocorre a sua implantação e o perfil do trabalhador são fatores que influenciam como essa experiência será vivenciada. Por isso, a organização e o teletrabalhador são corresponsáveis nos esforços para que haja benefícios para ambos.
Os principais desafios impostos ao teletrabalhador são organizar uma rotina e manter os relacionamentos interpessoais com colegas e chefia. Quando as tarefas são desenvolvidas em casa, no chamado home-office, há também a necessidade de estabelecer um limite entre o ambiente profissional e o familiar. Em contrapartida, cabe à organização oferecer instrumentos para adequar o novo ambiente profissional, desenvolver políticas de aproximação do trabalhador, além de metas claras de resultados e desenvolvimento.
De um modo geral, o trabalho remoto tende a ser favorável à saúde do trabalhador, como aponta a pesquisadora Aida Tavares. Entretanto, ela sinaliza que um possível isolamento social pode contribuir para o desenvolvimento de quadros de depressão e estresse, gerando impactos negativos associados a essa modalidade de trabalho. O que acontece é que o teletrabalhador permanece muito tempo envolvido com suas tarefas profissionais longe dos colegas, chefia e ambiente tradicional de trabalho, o que pode fazer com que ele se isole, apresente dificuldade em fazer pausas, sentindo-se sobrecarregado.
Não raro, as metas se sobrepõem ao gerenciamento do próprio tempo, fazendo com que alguns trabalhem mesmo doentes. Muitas vezes, essa dificuldade em lidar com a autonomia e a flexibilidade gera insegurança, culpa e desgaste emocional. Além do mais, quando não há uma delimitação entre o ambiente familiar e o laboral, aumentam as possibilidades de sofrimento psíquico, como concluem as pesquisadoras Regina Fonseca e Amália Pérez-Nebra em estudo de 2012.
Em compensação, sob condições adequadas de trabalho, os impactos sobre a saúde mental do indivíduo podem ser muito positivos com redução nos níveis de estresse, devido ao maior controle sobre a tarefa e a possibilidade de adequar os horários às preferências pessoais. Trabalhar em casa também afasta alguns estressores comuns aos centros urbanos como o trânsito, a falta de estacionamento e a precariedade de transportes públicos. Some-se a isso o fato de estar próximo da família ser um fator positivo quando as fronteiras com o contexto laboral são respeitadas, tendo em vista que preocupações com filhos pequenos e pais idosos são melhor administradas.
Diante do exposto, vale a pena se perguntar: será que o teletrabalho ou home-office é interessante para mim? Além dos fatores expostos, pesquisas apontam que há um perfil individual que aumenta as chances de sucesso com o teletrabalho. São características como: disciplina, independência, capacidade de se auto-organizar, concentração, automotivação e resistência a frustrações.
A ausência do convívio diário com colegas e gestor também exige estabelecer uma relação mútua de confiança com a chefia e desenvoltura na comunicação. Neste sentido, deve haver um esforço maior para acompanhar as informações e mudanças que ocorrem dentro do espaço convencional de trabalho, evitando equívocos e mal-entendidos, como se esquecer de notificar que está doente e que não conseguirá cumprir uma meta dentro do prazo. Se você percebe que reúne essas características, provavelmente, terá maior facilidade em lidar com os desafios do teletrabalho, sem trazer prejuízos para a sua saúde.
Caso você, servidor, tenha se interessado pelo tema e queira conversar melhor a respeito, entre em contato com a Seção de Assistência Psicossocial, mandando um e-mail para saude.mental@stj.jus.br. Um membro da equipe de saúde entrará em contato.
Referências:
Fonseca, R. L. D. A., & Pérez-Nebra, A. R. (2012). A epidemiologia do teletrabalhador: impactos do teletrabalho na saúde mental. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 15(2), 303-318.
Rafalski, J. C., & Andrade, A. L. D. (2015). Home-office: aspectos exploratórios do trabalho a partir de casa. Temas em Psicologia, 23(2), 431-441.
Tavares, A. I. (2017). Telework and health effects review. International Journal of Healthcare, 3(2), 30.
Saiba mais
A fim de ilustrar essa reflexão, sugerimos assistir o vídeo abaixo que viralizou nas redes sociais neste ano. Trata-se de uma cena em que o professor Robert Kelly protagoniza um dos maiores exemplos das dificuldades de conciliação dos espaços privados e laboral. Enquanto participava, em tom bastante formal, de uma entrevista no canal da BBC, ele foi surpreendido por suas filhas e na sequência, por sua esposa que tentava retirar as crianças da sala. O constrangimento de todos é evidente e a questão que fica é: a casa invadiu o trabalho ou o trabalho invadiu a casa?
https://www.youtube.com/watch?v=Mh4f9AYRCZY
http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-39238608
Texto: Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS/SIS/STJ)
Colaboradores: Juliana Bernardes de Faria (SEADI/STJ) e Catarina Nogueira França Rêgo (Revisão)
Responsável pelo projeto: Camilla Ferreira de Lima (SEADI STJ)
Arte: Murilo Maia Carvalho/SEADI STJ (design gráfico/web)
Ícones: FreePik/Vecteezy
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