Você já parou para pensar em como sua relação com o contexto familiar interfere no seu trabalho, ou em como sua relação com o trabalho influencia sua família? Há quem diga que é preciso separar os assuntos pessoais dos profissionais, mas até que ponto isso é possível?
As mudanças observadas na estrutura das famílias vêm contribuindo para a ocorrência de conflitos entre as demandas dos universos da família e do trabalho. No passado, a estrutura familiar era composta pelas figuras do homem provedor e da mulher que se dedicava às tarefas do lar. Segmentavam-se assim os dois universos, que ficavam centralizados em duas pessoas distintas.
Atualmente, verifica-se a maior participação de mulheres na força de trabalho, maior participação dos homens nas tarefas domésticas, mais famílias monoparentais, maior diversidade de configurações familiares e mais pessoas com responsabilidades de cuidar de pais idosos. A menor separação entre papéis profissionais e pessoais implica a ocorrência de conflitos entre esses dois universos. Essa conjuntura exige que as pessoas administrem demandas familiares e de trabalho que convivem e, por vezes, concorrem entre si, com implicações para o sujeito, a família e o grupo de trabalho.
Considerando que o bem-estar na família pode se refletir num melhor desempenho laboral, e que as habilidades e competências laborais podem ter um impacto positivo na vida pessoal do trabalhador, empresas do mundo todo têm se ocupado de buscar formas melhores de conciliação desses papéis.
Para viabilizar o equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional pesquisadores afirmam que tais iniciativas usualmente referem-se ao suporte que a organização dá aos cuidados com dependentes, às opções de flexibilidade no trabalho e à possibilidade de dispor de licença para tratar de assuntos pessoais ou familiares. Segundo os autores, essas políticas tipicamente têm por objetivo não apenas reduzir o conflito vivido pelos empregados, mas também são adotadas como estratégia de recrutamento, ao tornar a empresa mais atraente a potenciais trabalhadores.
De acordo com esses critérios, o STJ disponibiliza, de forma geral, boas condições para viabilizar a harmonização das demandas entre família e trabalho; ainda assim, no entanto, existem situações que transbordam de um contexto para o outro, momentos em que a acumulação de papeis gera incompatibilidade entre as exigências de cada um deles, gerando tensão e desgaste.
Em relatos colhidos de pacientes que dispuseram de licenças médicas por quadros de estresse agudo no STJ em 2016, as causas mencionadas com mais frequência para o transbordamento do estresse na família para o trabalho foram: falecimento de um familiar, adoecimento de familiares, separações conjugais, problemas de relacionamento com filhos e diagnósticos de doenças graves. Por outro lado, o apoio das equipes de trabalho e a disponibilidade para buscar soluções conjuntamente, situação frequente nas unidades do STJ, também influenciam positivamente a vida de muitos servidores em situação de doença e/ou sofrimento psicológico.
Em um outro estudo, os autores apresentaram alguns resultados importantes para compreendermos e atuarmos para propiciar a harmonização do desempenho de papéis familiares e laborais.
Quanto ao absenteísmo, esses pesquisadores afirmaram que é mais provável que o servidor falte por estar insatisfeito com o trabalho do que por problemas na sua vida pessoal. Outro dado importante desse estudo é que a compreensão da chefia imediata a respeito das dificuldades decorrentes de conflitos entre papéis laborais e familiares foi considerada mais importante pelos sujeitos que a flexibilidade de horários e a autonomia do trabalhador. Ou seja, o chefe compreender as tensões com as quais o trabalhador está lidando e estabelecer referências para que essas possam ser superadas parece ser um recurso poderoso para apaziguar a situação de sofrimento.
Conciliar as responsabilidades familiares e laborais é um desafio atual, desgastante e relevante para as instituições. Demanda um esforço conjunto de continuo ajustamento do desempenho em ambas as frentes, tanto na família quanto no trabalho. Sem prejuízo da privacidade, numa situação de queda do desempenho laboral de um colega ou subordinado em decorrência de dificuldades na família, é importante reconhecer a necessidade de maior dedicação à família e garantir o espaço para uma conversa reservada entre chefe imediato e servidor, antes que o desgaste para conciliar esse conflito de demandas aumente muito.
Saiba mais
Você, servidor, que estiver vivenciando uma condição de sofrimento no âmbito da família que esteja comprometendo seu trabalho ou vice-versa, pode utilizar o seguinte e-mail para que possa pedir ajuda: saude.mental@stj.jus.br. Um membro da equipe de saúde entrará em contato.
Referências:
Beauregard, T. A., & Henry, L. C. (2009). Making the link between work-life balance practices and organizational performance. Human Resource Management Review, 19(1), 9-22. doi: 10.1016/j.hrmr.2008.09.001
OLIVEIRA, Lucia Barbosa de; CAVAZOTTE, Flávia de Souza Costa Neves; PACIELLO, Raul Ricardo. Antecedentes e consequências dos conflitos entre trabalho e família. Rev. adm. contemp. Curitiba , v. 17, n. 4, p. 418-437, ago. 2013 . Disponível em
Texto: Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS/SIS/STJ)
Colaboradores: Juliana Bernardes de Faria (SEADI/STJ) e Catarina Nogueira França Rêgo (Revisão)
Responsável pelo projeto: Camilla Ferreira de Lima (SEADI STJ)
Arte: Murilo Maia Carvalho/SEADI STJ (design gráfico/web)
Ícones: FreePik/Vecteezy
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