Você já observou o quanto o consumo de bebida alcoólica está presente em tantos contextos da nossa cultura e da nossa sociedade? Desde a privacidade de nossos lares, passando por celebrações familiares, festejos mais impessoais e chegando até mesmo a ritos religiosos, o consumo do álcool é algo tão frequente que, muitos de nós, temos como inevitável o seu consumo.

É verdade que, em sociedade, há visões extremas a respeito do assunto. Alguns grupos sociais são mais restritivos e enfatizam visões mais negativas, associando o consumo de álcool a desequilíbrio moral. Outros grupos destacam exageradamente os aspectos positivos desse consumo, tratando o abuso etílico de forma cômica e divertida, e chegando mesmo a incentivar jovens e crianças à exposição precoce. Esses extremos estabelecem uma espécie de eixo, dentro do qual a maioria de nós se situa em algum lugar.
Não há um consenso absoluto a respeito da fronteira entre um uso social da bebida alcoólica e quando começa a ser patológico, mas percebe-se claramente que há uma “escala de cinza” que começa com o uso recreativo e que à medida em que se vai aumentando, a bebida vai se tornando mais frequente e mais importante na vida da pessoa. Aos poucos vai causando prejuízos cada vez maiores em suas relações pessoais e familiares, em sua saúde física, e mesmo em sua funcionalidade social e de trabalho.
Uma pesquisa realizada por Fátima Büchelle (2001) sobre as representações sociais do álcool e do alcoolismo, identificou muitos elementos comuns em diversos grupos sociais quando se pensa e fala sobre o alcoolismo. As principais representações sociais encontradas foram: a ideia de uso do álcool como fonte de prazer, alegria e sensação de liberdade; o sofrimento quando o uso passa a sair do controle do sujeito, associado à vergonha e à culpa; a percepção de fatores sociais como propagandas e pressão de grupos como influências importantes.
O que se destacou para a pesquisadora foi como o fenômeno da dependência de álcool ainda é interpretado, predominantemente, pelo enfoque moral da responsabilidade individual, como se a pessoa que desenvolve problemas com bebida fosse simplesmente fraca, sem vergonha ou descontrolada. Essas interpretações desconsideram, ou dão pouca ênfase, a aspectos culturais importantes na construção de situações de vulnerabilidade, como a exigência de alto desempenho profissional e social e o encorajamento ao uso de álcool pelos pares e pelos meios de comunicação de massa.
Essas interpretações, que estão presentes de forma mais sutil ou mais evidente na forma como pensamos sobre alguém que tem problemas com abuso de álcool, nos afastam de uma reflexão importante sobre como nossos hábitos, nossa forma de socializar e de nos alegrarmos, nos deixam (e também aqueles próximos de nós) mais vulneráveis a desenvolverem uma relação prejudicial com bebidas alcoólicas.
Muitas vezes o abuso de álcool começa como uma estratégia da pessoa para lidar com seu sofrimento, para dormir, para aliviar a ansiedade e o estresse. Sem controle com o momento de vida, que enseja o abuso da bebida, a tendência é a pessoa aumentar o número de doses consumidas para ter o efeito esperado e assim, torna-se extremamente vulnerável ao alcoolismo.
Hoje o alcoolismo é visto pelos profissionais de saúde como um transtorno multideterminado, ou seja, um problema com diversas causas que se combinam de formas diferentes em cada indivíduo. Diversos estudos abordam as influências biológicas, genéticas, familiares e psicológicas da dependência e do abuso de álcool. É muito importante, também, considerar a percepção social do uso e do abuso de álcool como uma variável importante no desenvolvimento de problemas relacionados ao beber.
Se você já recebeu críticas sobre a forma como você bebe e os contextos nos quais você fez uso de álcool, reflita um pouco sobre a pertinência dessa crítica pois pode ser alguém querendo ajudá-lo a perceber um problema. Se você, servidor do STJ, quiser conversar sobre esse assunto, pode buscar ajuda da Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS). Mande um e-mail para saude.mental@stj.jus.br e entraremos em contato.
Fontes consultadas:
Büchelle, F (2001). A embriaguez social do beber. Tese de doutoramento em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Catarina.
Texto: Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS/SIS/STJ)
Responsável pelo projeto: Camilla Ferreira de Lima (SEADI STJ)
Arte:Murilo Maia de Carvalho e Pedro Paulo Silva Sihuay (arte/web)
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