Quando pensamos a respeito do abuso de drogas, normalmente, fazemos menção às drogas ilícitas e ao álcool. Entretanto, é possível ocorrer o abuso de drogas prescritas, especialmente sem supervisão médica. Pensando nesse problema vamos refletir sobre os ansiolíticos, drogas amplamente usadas e prescritas que são, também, comumente abusadas pelos pacientes.

Os ansiolíticos foram bastante prescritos nas últimas décadas para tratamento das dificuldades de sono e para o tratamento da ansiedade. Dentre eles, os benzodiazepínicos apresentavam menos efeitos colaterais que a gerações de ansiolíticos anteriores e tinham um bom resultado na indução de sono e diminuição dos sintomas de ansiedade. Eles passaram a ser amplamente prescritos e utilizados ao longo dos últimos cinquenta anos.

Estima-se que os benzodiazepínicos estejam entre os fármacos mais prescritos nos países ocidentais. Alguns estudos apresentam índice de uso dos benzodiazepínicos em torno de 10% a 20% da população geral, em algum momento da vida. No Brasil, o uso de benzodiazepínicos pela população feminina é o dobro da população masculina. A literatura especializada aponta para os seguintes fatores para explicar esse fenômeno: 1) há maior prevalência de casos de depressão e ansiedade entre as mulheres, 2) as mulheres têm menor resistência em usar medicações e 3) elas são mais cuidadosas com a sua saúde. De maneira geral, o uso de benzodiazepínicos tem aumentado nos últimos anos.

O uso prolongado de benzodiazepínicos, sem supervisão médica, é potencialmente perigoso pois pode levar à tolerância da medicação e mesmo à dependência. Isso implica em aumento das dosagens para obter efeitos semelhantes aos do início do uso. A superdosagem com benzodiazepínicos é fator de risco para quedas, confusão mental e pode levar a óbito. Muitos casos de tentativas de suicídio ocorrem como um “desejo de dormir” seguido de superdosagem com ansiolíticos e associação com bebidas alcóolicas.

As autoras Schallemberger e Colet (2016) verificaram uma relação forte do uso de benzodiazepínicos entre pessoas com menos educação e renda. As autoras ponderam que a falta de acesso a terapias não farmacológicas, a falta de práticas de cuidados com a saúde e o estresse a que está exposta essa população são variáveis importantes para compreender essa tendência.

Isso é relevante para refletirmos sobre algo muito importante que é a contextualização dos sintomas de ansiedade na vida dos pacientes. O uso indiscriminado dos benzodiazepínicos pode dificultar para as pessoas a percepção de que há um contexto estressor, uma história de sofrimento, uma tensão experimentada que impõe os sintomas ansiosos. O desaparecimento dos sintomas ansiosos não permite que a pessoa constate a dificuldade que ela está vivenciando. Daí a importância de uma avaliação com um especialista para compreender o quadro e propor a medicação e seu uso adequado.

Em muitos casos o tratamento adequado de transtornos ansiosos deve ser realizado complementando o uso de medicação e a realização de psicoterapia. A insônia como sintoma de ansiedade é diferente de transtornos do sono que merecem uma abordagem específica para sua superação. Nesse sentido é que o tratamento de sintomas ansiosos e da insônia devem ser realizados por especialistas. Uma consulta com um psiquiatra pode fazer toda a diferença entre o abuso do medicamento e seu uso como um tratamento adequado.

Você, servidor (a), que se identificou com as informações apresentadas e quer obter mais informações ou procurar ajuda, pode escrever para saude.mental@stj.jus.br. Um membro da equipe de saúde entrará em contato.

Fontes consultadas:

CHALLEMBERGER, Janaína Barden and COLET, Christiane de Fátima. Assessment of dependence and anxiety among benzodiazepine users in a provincial municipality in Rio Grande do Sul, Brazil. Trends Psychiatry Psychother. [online]. 2016, vol.38, n.2 [cited 2019-04-15], pp.63-70. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-60892016000200063&lng=en&nrm=iso. >. Epub June 27, 2016. ISSN 2237-6089. http://dx.doi.org/10.1590/2237-6089-2015-0041.

MADRUGA, Clarice S. et al. Prevalence of and pathways to benzodiazepine use in Brazil: the role of depression, sleep, and sedentary lifestyle. Braz. J. Psychiatry [online]. 2019, vol.41, n.1 [cited 2019-04-15], pp.44-50. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462019000100044&lng=en&nrm=iso. >. Epub Oct 11, 2018. ISSN 1516-4446. http://dx.doi.org/10.1590/1516-4446-2018-0088.

Texto: Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS/SIS/STJ)
Responsável pelo projeto: Camilla Ferreira de Lima (SEADI/STJ)
Arte:Pedro Paulo Silva Sihuay e Camilla Ferreira de Lima (SEADI/STJ)

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