Grandes decisões na vida nos deixam ansiosos, isso é normal e esperado. Decidir por encerrar um ciclo profissional, por exemplo, pode nos trazer expectativas e inseguranças. No entanto, a ansiedade pode ganhar uma dimensão maior do que o razoável, tornando-se incapacitante. Quanto mais inespecífica a circunstância que gere o medo, mais difícil é lidarmos com os sintomas da ansiedade pois, assim, eles podem parecer descontrolados e sem razão. Por isso, sempre é importante compreender o contexto que ensejou a condição ansiosa para lidarmos com os limites do nosso controle.
Diante de uma conjuntura que impõe risco e angústia a muitas pessoas, você consegue perceber se está em situação de crise ou costuma achar que está exagerando no sofrimento? Esta reflexão é relevante neste momento, no qual muitos de nós nos vemos pressionados a tomar decisões sobre aposentadoria devido à reforma da previdência. Para além dos números e estimativas do governo, existem pessoas que precisam fazer escolhas difíceis e lidar com perspectivas de tempo de aposentadoria que mudaram.
Como falamos anteriormente, a expectativa de uma consequência ruim ou a dúvida com relação a boas probabilidades levam à ansiedade. As incertezas geradas, as mudanças de planos e o apressamento de decisões têm mobilizado muitos de nós a uma condição de ansiedade frente a deliberações sobre a aposentadoria em meio às mudanças na previdência. Estão em pauta assegurar direitos ou o medo de novas alterações, antecipando uma decisão indesejada no momento. Com isso, a satisfação de encerrar um ciclo profissional é comprometida pela insegurança gerada pelas circunstâncias.
Em contrapartida, alguns de nós fomos frustrados com a expectativa iminente de aposentadoria, tendo que lidar com mais anos de trabalho pela frente. Essa vivência pode levar a um sentimento de dúvidas quanto ao próximo momento de aposentar e incertezas quanto aos projetos de vida. Uma situação delicada e desgastante que pode ensejar bastante sofrimento. Esse contexto exige um bom nível de resiliência para ressignificar o futuro e a relação atual com o trabalho. Além disso, torna-se importante a atenção de gestores e colegas no sentido de minimizar o impacto gerado pelas novas demandas de ajuste aos projetos e perspectivas de vida profissional e pessoal.
A aposentadoria exige uma adaptação à mudança de status social, afetando as pessoas que têm maior identificação com o trabalho, pois tendem a se ressentir mais com a perda da identidade profissional, do círculo de amigos e de uma rotina de vida, como apontam estudiosos do tema. Nesse contexto de transição, é normal que a incerteza permeie a deliberação sobre o melhor momento para findar o ciclo profissional, devendo a decisão ser percebida como um processo e não como um momento. O processo escolha sobre a melhor ocasião para aposentar é permeada por períodos de convicção e dúvida. É também uma fase que deveria consagrar uma história de trabalho, algumas décadas de dedicação e exercício responsável da profissão. Trata-se de uma etapa de grandes mudanças e o início de um novo ciclo produtivo.
Todos estamos atravessando um período de mudanças na forma como pensamos o nosso futuro previdenciário. Entretanto, é possível que, dadas as mudanças sociais e vulnerabilidades individuais, algumas pessoas fiquem mais ansiosas ou sofram mais que outras. Para quem decide pela aposentadoria, é uma oportunidade de celebrar as conquistas e contribuições, valorizando a jornada profissional que foi construída. Para aqueles que permanecem trabalhando, é importante analisar o caminho percorrido e as perspectivas futuras, mas permitindo-se dar novos sentidos à relação com o trabalho. Vale pensar em como tirar proveito dos conhecimentos e experiências adquiridas ao longo do tempo, explorar novas oportunidades que a instituição oferece ou mesmo investir em qualificação.
Enfim, podemos adotar o cuidado de criar condições de diálogo e reflexão sobre o fechamento ou o prolongamento do ciclo profissional, acolhendo aqueles que estão mais mobilizados com o assunto. Com isso, é possível minimizar o desgaste excessivo de cada um e favorecer a adaptação das equipes de trabalho às novas conjunturas.
Se você servidor(a) tem se sentido aflito(a) ou ansioso pelas mudanças nas condições para sua decisão pela aposentadoria e deseja conversar a respeito, mande um e-mail para saude.mental@stj.jus.br. Um profissional de nossa equipe entrará em contato com você.
Osborne, J. W. (2012) Psychological Effects of the Transition to Retirement. Canadian Journal of Couselling and Psychotherapy, Vol, 46. Disponível em https://files.eric.ed.gov/fulltext/EJ969555.pdf
BOEHS, Samantha de Toledo Martins; BARDAGI, Marucia Patta e SILVA, Narbal. Trabalho, aposentadoria e satisfação de vida em aposentados de uma multinacional. Rev. Psicol., Organ. Trab. [online]. 2019, vol.19, n.3 [citado 2019-11-06], pp. 653-661 . Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572019000300003&lng=pt&nrm=iso. ISSN 1984-6657. http://dx.doi.org/10.17652/rpot/2019.3.16310
Decidir quando aposentar é uma reflexão que deveria começar no início da carreira profissional. No Superior Tribunal de Justiça - STJ dispomos de um programa de preparação para a aposentadoria chamado Sempre é Tempo de Aprender, que se propõe a ajudar os servidores a refletirem sobre suas perspectivas e identificarem novas formas de investir seu tempo e interesse. Ele ocorre por meio de encontros periódicos desenvolvidos na forma de módulos, abrangendo diversos temas relevantes nesse processo que dizem respeito a fatores: de saúde, físicos, psicológicos, sociais, familiares, culturais, espirituais, administrativos, dentre outros. Em 2019 foram desenvolvidos 13 módulos por meio de 20 encontros. A ação educativa vale adicional de qualificação e as inscrições são feitas no Portal do Servidor > Eventos Internos.
Texto: Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS/SIS/STJ)
Responsável pelo projeto: Seção de Soluções em EaD e Desenho Instrucional (SEADI/ECORP/STJ)
Arte:Pedro Paulo Silva Sihuay (SEADI/ECORP/STJ)
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