Uma das maneiras como podemos olhar para nossas vidas é na perspectiva de um ciclo, com diversas fases. Esse ciclo é caracterizado pela interação entre várias dimensões da existência, em diferentes idades e etapas de vida que percorremos. Dentre essas dimensões, destacamos três que interagem fortemente ao longo da história pessoal de cada um:

- O desenvolvimento biológico. Este ocorre de forma mais intensa e evidente na infância e na adolescência, mas na verdade atravessa toda a vida do ser humano. Ao longo da vida adulta e do envelhecimento, esse desenvolvimento é caracterizado por mudanças corporais, alterações em níveis hormonais, na disposição física e mental, e mesmo na capacidade imunológica e de recuperação do corpo.- O desenvolvimento biológico. Este ocorre de forma mais intensa e evidente na infância e na adolescência, mas na verdade atravessa toda a vida do ser humano. Ao longo da vida adulta e do envelhecimento, esse desenvolvimento é caracterizado por mudanças corporais, alterações em níveis hormonais, na disposição física e mental, e mesmo na capacidade imunológica e de recuperação do corpo.

- A dimensão psicossocial, que diz respeito aos relacionamentos importantes para uma pessoa ao longo das etapas de sua vida, e também aos papéis sociais que ela vai assumindo e/ou deixando nesse caminho. Essas experiências influenciam diretamente em emoções, demandas, habilidades, e até mesmo na forma como a pessoa se percebe, ou seja, em sua identidade.

- O contexto cultural, que influencia as dimensões anteriormente citadas em termos dos modelos, parâmetros, expectativas e exigências que são oferecidos a nós, tanto para exercermos os diversos papéis que assumimos ao longo da vida, quanto para avaliarmos o nosso desempenho nesses.

Diversos profissionais de saúde buscam formas de entender e abordar a relação entre a saúde, ou a vulnerabilidade a doenças, e as etapas desse ciclo de vida. Com o aumento da expectativa de vida e o crescimento da idade da população em vários países, torna-se cada vez mais importante compreender e caracterizar o processo de desenvolvimento adulto e de envelhecimento.

Ao observar o desenvolvimento humano numa perspectiva de ciclo de vida, percebemos que, em cada fase da vida, há vulnerabilidades em uma ou algumas das dimensões que destacamos, e também recursos que surgem ou que procuramos desenvolver para compensar ou superar essas vulnerabilidades, por vezes em outras dimensões.

Lembra aquele jargão que diz que “a criança tem saúde, tem tempo, mas não tem dinheiro; o adulto tem dinheiro, tem saúde, mas não tem tempo; o idoso tem tempo, tem dinheiro, mas não tem saúde”? Digamos que é uma forma imprecisa, e até mesmo questionável, como a cultura fala dessa interação entre recursos e vulnerabilidades ao longo da vida. A experiência de muitas pessoas pode divergir do que está descrito nesse jargão, mas nós o mencionamos como um exemplo também dos referenciais culturais que temos disponíveis para interpretar nossos papeis e nosso desempenho; o que é permitido, esperado ou por vezes exigido de nós.

Psicólogos e cientistas sociais têm observado como uma característica de destaque da pós-modernidade uma espécie de prolongamento da juventude, tanto em termos do avanço das ciências de saúde, que ameniza em alguns aspectos a passagem do tempo na biologia e na aparência das pessoas, quanto em termos de uma valorização da juventude e uma certa exigência cultural de identificar-se com ela. Essa exigência tem implicações diretas na vivência e na interpretação das tarefas de desenvolvimento do ciclo de vida.

Cada ser humano é, em alguns sentidos, único, e por isso não é possível caracterizar de forma fechada e determinada as etapas de um ciclo de vida que sejam aplicáveis a qualquer pessoa. No entanto, é possível observar alguns pontos da trajetória de vida em que esses três eixos (biológico, psicossocial e cultural) se cruzam de forma característica na vida da maioria das pessoas. Neste texto queremos chamar a atenção para algumas dessas etapas, seus desafios e recursos.

A pessoa entre 20 e 28 anos vem sendo chamada de “adulto jovem”. O sujeito nessa faixa etária enfrenta, geralmente no auge de seu vigor físico, alguns desafios profissionais e psicossociais típicos. A tarefa de se diferenciar afetivamente da família de origem, que antes era considerada própria da adolescência, se estende para essa fase de forma mais concreta, muitas vezes culminando com a saída da casa dos pais e também com o surgimento de novas relações familiares e novos papéis, como de cônjuge e de pai/mãe. Esses movimentos com frequência ocorrem em conjunto com a busca de autonomia e desenvolvimento em termos financeiros, profissionais e acadêmicos, que exige investimentos intensos de tempo e energia. Aqui no STJ, muitos jovens concurseiros ou estudantes podem se reconhecer nessa etapa.

Outro recorte que destacamos é a meia-idade, pela qual passam adultos de 35 a 50 anos. É caracterizada por um declínio do vigor físico dos anos anteriores, em geral compensado por uma estabilidade em termos familiares, socioeconômicos e financeiros. Por outro lado, convergem nesse período algumas tarefas de desenvolvimento exigentes. Muitos estão às voltas com constantes mudanças no papel de pais, com a rotina de cuidados dos filhos e as exigências próprias de suas diversas fases de desenvolvimento, ou mesmo com a saída desses de casa, já adultos. Por vezes, surge também a demanda de um cuidado mais direto dos pais, que já vão ficando idosos, seja em termos operacionais, financeiros ou afetivos.

Além disso, essa estabilidade pode ensejar mudanças sutis de perspectiva a respeito da vida, que evoluem desembocando numa espécie de reavaliação das escolhas feitas anteriormente e dos resultados colhidos, que pode chegar a mudanças mais radicais dos princípios que norteavam a vida da pessoa. É a famosa crise de meia-idade, que costuma ter implicações nos mesmos aspectos estáveis que a ensejaram, como a carreira e, em especial, o vínculo conjugal, que sofrem renegociações e, por vezes, rupturas.

No caso da mulher, acrescenta-se ainda, ao final dessa faixa etária, um elemento de destaque na dimensão biológica: o climatério. Trata-se da interrupção natural dos ciclos hormonais que caracterizam a fase fértil da mulher, associada a mudanças hormonais, corporais e emocionais importantes, com diversas implicações psicossociais. Esse processo pode ser lido como uma oportunidade de desenvolvimento, que possibilita reinterpretações da aparência, da sexualidade, dos vínculos afetivos e conjugais, dos papeis sociais, e mesmo da própria identidade enquanto mulher. Por ser também uma etapa com aspectos sofridos e desconfortáveis, surge o risco de medicalizar excessivamente esse processo, e assim calar essas oportunidades de releitura e mudança dos papeis e relações.

Se você estiver numa das fases descritas, mas não se identificar com as tarefas de desenvolvimento mencionadas; ou ainda, se essas tarefas e desafios aconteceram (ou estão acontecendo) em ordem ou momento diferente na sua vida, não há nada de errado nisso. Como já foi dito, não é possível “padronizar” o nosso ciclo de vida, pois somos únicos. O que queremos é chamar a atenção para a influência do tempo em nossa condição física, nossos recursos psicológicos e sociais, nossa percepção de nós e de nossas relações.

Por outro lado, “naturalizar” os desafios e dificuldades dessas fases da vida não quer dizer que não possamos qualificar nossa vivência desses momentos, seja flexibilizando os referenciais culturais que adotamos como parâmetro, enriquecendo nossas relações e vínculos sociais, ou mesmo procurando ajuda médica e psicológica para elaborar as mudanças.

Você, servidor, que se identificou com os temas abordados e deseja conversar a respeito, envie uma mensagem para saude.mental@stj.jus.br. Um membro da equipe entrará em contato.

Se quiser refletir mais sobre o tema, sugerimos o vídeo abaixo:

Texto: Seção de Assistência Psicossocial (SEAPS/SIS/STJ)
Responsável pelo projeto: Camilla Ferreira de Lima (SEADI STJ)
Arte: Murilo Maia de Carvalho (SEADI STJ) (design gráfico/web)

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